sexta-feira, 10 julho , 2026

Reinventar-se: opção ou manipulação?

“Reinvente-se! Mude! Seja o autor da sua vida! Acompanhe o movimento! Fique ligado, quem não se reinventa fica para trás…” – Essas são algumas frases que lemos e ouvimos todos os dias. “Reinventar-se”, vem sendo anunciado quase como um dever existencial, como uma condição para a sobrevivência.

Mas será que reinventar-se é tão simples e natural ao ser humano? E, mais do que isso: será que reinventar-se ‘permanentemente’ é saudável?

Desde o nosso nascimento até o presente momento, estamos em permanente construção a partir de várias referências – nossa família, amigos, professores, a mídia, o marketing, a cultura de nosso estado e país, o meio no qual estamos inseridos, a educação que recebemos e ainda as inúmeras variáveis e experiências com as quais temos contato.

Somos “esponjas” e vivemos acumulando o que vem a tornar-se nosso repertório – emocional, físico e até cultural. Somos o resultado da soma de muitos valores, conhecimentos, traumas e de muitas outras coisas que, seja por curiosidade, educação, convivência ou até imposição – chegaram e foram incorporados por nós.

Isso tem seus pontos negativos, mas também positivos. Afinal somos um acumulado de conhecimentos e experiências e é isso que nos faz sobreviver, trabalhar, executar tarefas, constituir família, gerar e educar filhos, buscar objetivos… Por isso, precisamos nos perguntar: reinventar-se? Como? Para quê? Para quem? Afinal, reinventar-se é um termo que pode ser entendido de muitos modos, de acordo com o tempo, o lugar em que estivermos, a condição de vida e os recursos conceituais que conseguirmos mobilizar. Por isso, é importante pensar com cuidado sobre essa reinvenção.

Reinventar-se simplesmente porque a sociedade, o mercado ou o avanço tecnológico exigem, não me parece uma opção, mas uma manipulação.

Desconsiderar todo o arsenal de conhecimentos, vivências e experiências adquiridas no decurso da vida e ser considerado inapto para a vida moderna, também. Assim como obrigar-se a “ter novas roupagens e comportamentos” sem que isso gere satisfação.

Não quero dizer com isso que não devemos mudar, evoluir, melhorar, superar limites; mas isso não pode ser uma imposição, precisa ser um processo natural. Ou seja, precisamos pensar sobre as possibilidades de mudança no rumo da própria evolução para que sejamos capazes de enxergar o mundo sob outros ângulos e possamos cumprir nosso papel nessa existência.

Reiventar-se por modismo ou pressão, talvez até constitua novos sujeitos, ajude no alcance de metas, impulsine carreiras… mas a que preço?

Não são raros os casos de depressão, burnout, compulsões e várias outras doenças que hoje assombram a humanidade e muitas delas estão associadas a correria, ao estresse e as “necessárias” e permanentes mudanças (de emprego, de carreira, de relacionamento, de tecnologia, de compreensão, etc.); ou seja, a reinvenção.

Por isso não podemos perder de vista nossa identidade, autoestima, consciência e, sobretudo, satisfação, valorizando o que somos, sabemos e o que temos a ensinar.

*Luciana Flôr Correa Felipe, é Consultora em atividades relacionadas a Inovação e Empreendedorismo, possui Doutorado em Educação Cientifica e Tecnológica, Mestrado em Educação, Graduação em Serviço Social e Graduação em Pedagogia. Estuda as implicações sociais da Ciência e da Tecnologia, no intuito de debater sob uma perspectiva crítica, a equação civilizatória contemporânea e fomentar uma postura reflexiva na sociedade.

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